As coisas não são o que parecem

Há quem diga que as coisas são o que são e há mesmo quem refira, perante certas circunstâncias, que o que se observa é tão límpido como a água.

Mas na realidade as coisas não são bem assim. Já nem falo de certos políticos que dizem que são muito honestos, que fazem isto e mais aquilo, que nunca farão o que o outro fez e que quando menos se espera, logo que têm oportunidade, fazem precisamente o contrário daquilo que disseram. Não são só os políticos e os troca-tintas, que evidenciam que as coisas não são como são. Veja-se, por exemplo, as cores. Não são elas afetadas, quer pela luz que nelas se reflete, quer pelo olho que as fixa? Quem, por exemplo, olhar as cores da paisagem neste momento, e as observar novamente daqui a algumas horas, ou amanhã, notará muitas diferenças.

A maneira como é interpretada a história também varia de acordo com quem a escreve, daí que não erraremos se dissermos que ela tem tanto de clara como de escura. Também o modo de olhar e a expressão do corpo têm um sem número de interpretações. Ao ponto de, sem se pronunciar palavra, alterarem os comportamentos de quem os observa e de fazer, por exemplo, desistir um jogador de xadrez, de uma jogada que podia ser vencedora.

O que escrevemos de modo algum pretende desresponsabilizar a falta de caráter que revelam os que se comprometem e não cumprem, que dizem agora uma coisa para a seguir dizer o seu contrário. A dissimulação talvez já venha desde que o homem, ou a mulher, claro, abriram os olhos. Faça-se aqui um parenteses para referir que desde que nasceram, é uma maneira de dizer, pois foi seguramente uns meses mais tarde.

Logo que se aperceberam de que estavam nus, procuraram cobrir-se mesmo à vista do criador. Assim quase que podíamos dizer que a diligência de esconder nasceu com o próprio mundo. Quem sabe se a curiosidade não terá também nascido nessa altura.

O ser humano tem curiosidade por tudo aquilo que se oculta. Talvez seja por isso que há quem diga que as coisas confidenciais de uma empresa devem ser afixadas no placard onde estão circulares ou normas de serviço, visíveis a todo a gente, mas que poucos leem. Mas se essa mesma documentação estivesse num lugar onde fosse dada a ideia de que era secreta, provavelmente despertaria muito mais curiosidade.

Dissimular e fantasiar não podem ser consideradas como fraudes pois, ao não mostrarem as coisas como são, não significam formar o falso. Mas lá que dão algum repouso ao verdadeiro, dão.

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